Os retornados
04/04/2008

Benim Menino

Por Claufe Rodrigues




13.
De quantas mães você precisa,
Menino Benim?
A mais gorda cuida da cozinha,
A mais feia varre a casa.
Aquela, tão bonita, canta e dança no terreiro,
Onde a magrela sopra a brasa.
A mais nova vende na feira
Ou na beira da estrada
O peixe e o camarão
Que a irmã pescou
Na lagoa encantada.
As mães do menino Benim
São tão parecidas
No jeito de vestir, na maneira de andar.
Nasceram para gerar as mesmas vidas,
Muitas vezes.
Os séculos parecem meses
Que passaram sem passar.


04/04/2008

Diário do Benim: o pequeno Elian



Foi sem a menor cerimônia, bem do jeitinho africano.

Depois de um longo e cansativo dia de trabalho, nosso carro fez o favor de quebrar. Estávamos num bar chamado KGB (!) esperando para saber se tudo poderia ser resolvido nas próximas horas, enquanto bebíamos uns refrigerantes.

Mecânicos de Agüê avaliando o estrago


Sem que eu me desse conta, no meio dos curiosos que cercavam o Paulinho, por causa da câmera, lá estava o pequeno Elian com o cotovelo displicentemente apoiado no meu joelho. Bastou um sorriso pra gente se entender (e o sorriso sempre abre portas, não só aqui na África).


Paulinho cercado pelos curiosos


Ele já vinha acompanhando todos os meus movimentos e se interessou bastante pelas fotografias que eu tirava. Através de mímica a gente foi se entendendo devagar, já que ele não falava francês ou português e eu nem sequer imaginava que língua ele estava falando, se fom ou miná.

Durante as três horas em que esperamos pela notícia de que o carro não ficaria pronto, "conversamos", rimos muito e tiramos várias fotos.

Naquele dia, em Abomé (a antiga capital do reino fom do Daomé), conheci, convivi e me despedi triste do filho adotivo que encontrei lá do outro lado do Atlântico.

Alexandre mostra as fotos para Elian




Alexandre e Elian

03/04/2008

Benim Menino

Por Claufe Rodrigues


12.
A água, o gesto, o porte:
O menino Benim é antes de tudo um forte
Afogando com sua mágoa
A possibilidade da morte.

03/04/2008

Diário do Benim: a nossa bandeira



Levamos três bandeiras brasileiras para o Benim. Não sabíamos ainda para quem elas seriam ofertadas. Agora, olhando para trás, fico imaginando que cada bandeira já estava com o destino traçado. Fomos apenas os “fiéis depositários”, que as levariam até seus donos.

A primeira delas, demos de presente para a família Amaral. Depois de uma recepção calorosa, com direito à burrinha e comidas “brasileiras”, os Amaral receberam o nosso pavilhão – que vimos, surpresos, ser reverenciado com infinitos agradecimentos


Os Amaral reunidos



A segunda bandeira foi presenteada aos D’Almeida, uma das mais importantes famílias de retornados de Agüê. Nossa recepção foi mais que amistosa, e olha que chegamos de surpresa! Num jeitão bem brasileiro e improvisado, eles reuniram grande parte da família, nos contaram histórias curiosas e ainda cantaram muitas músicas de origem brasileira. Entre elas, aquela que virou a número um na nossa parada de sucessos. Começava com “papaiiii, mamãeeeee...” e o resto ninguém conseguia entender.

Depois de ganhar a bandeira, ainda posaram para fotos, felicíssimos com o presente.

Família D'Almeida


Claufe com a família D'Almeida e a bandeira do Brasil


O terceiro estandarte foi até fácil saber de quem seria. No penúltimo dia, fomos visitar a família Bandeira, descendente de um ex-escravo retornado que era responsável por hastear nosso lábaro no forte militar onde trabalhava. Fortuné, arquiteto bem sucedido e responsável pela construção do Portal do Não-Retorno e do Portal dos Retornados, ficou tão emocionado que imediatamente pediu ajuda ao irmão para escolher o melhor lugar onde pendurar a bandeira.

Pensando melhor, depois de ver a felicidade que o presente trouxe para os Amaral, os D’Almeida e os Bandeira, chegamos à conclusão de que o melhor era termos levado bandeiras para todas as famílias de retornados brasileiros...


Fortuné ajeita a bandeira nos ombros de Lotty, observados por Roger



Prontos para a foto



A família Bandeira se despede de nós

01/04/2008

Diário do Benim: Anika e Francisca


Do lado de fora já dava para ver a diferença. Era um casarão grande, um sobrado daqueles que a gente só vê hoje em dia no centro antigo do Rio de Janeiro, em São Luís ou na Cidade Baixa, em Salvador, por exemplo.

Nenhuma casa por perto é tão imponente. É lá, em Porto Novo, que mora Francisca Patterson - cujo nome de solteira era Francisca dos Santos - a atual presidente da Associação dos Descendentes de Brasileiros.

Ainda do lado de fora, nos encontramos com Anika Domingo, filha da antiga presidente da Associação, que esteve à frente da agremiação por mais de 30 anos, até morrer.

Imponente sobrado brasileiro em Porto Novo
Entrada lateral com a escada externa
Escada externa
Anika Domingos

Entrar no sobrado foi como fazer uma viagem no tempo, direto ao século XIX. O pé direito alto, as janelas grandes, as salas espaçadas, o chão com pequenas pastilhas pretas e brancas... Dona Francisca já nos esperava impaciente com bolos, sucos e aquela maneira bem generosa e acolhedora com a qual já havíamos nos acostumado no Benim.

Dona Francisca lembra que a Associação existe há 125 anos! Mantê-la viva e atuante é uma maneira de prestar reverência aos primeiros brasileiros que retornaram para o Benim - e em especial para Porto Novo – e lá se destacaram em diversos ofícios como a marcenaria, a arquitetura e a construção civil. A casa onde ela mora era prova do esmero e do talento desses brasileiros.

Era naquela casa que se praticava o português durante o tempo em que o idioma era proibido pela administração colonial francesa. Mesmo assim nossa língua perdeu a queda-de-braço para o francês.

Hoje a Associação – e dona Francisca em particular – procura sensibilizar as autoridades brasileiras no Benim para que restabeleçam as aulas de português, suspensas há 10 anos.

Como ela mesma diz: “As tradições podem se perder com o tempo, mas a vontade de manter nossos laços não pode. Se eles sumirem, somem também as lembranças dos nossos ancestrais, das nossas origens, do nosso Brasil.”

Últimos detalhes para a entrevista com dona Francisca
Dona Francisca e chief Paul Bangbose-Martins
Mosaicos no chão do sobrado
Detalhe do mosaico

31/03/2008

Benim Menino


Por Claufe Rodrigues



11.
O menino Benim
É um táxi verde-amarelo
No meio de tantas motos.
Símbolo de nosso elo,
Merecia muitas fotos.

31/03/2008

Grande família brasileira na África



O primeiro programa da série que comemora os 120 anos do fim da escravidão mostra a saga dos retornados brasileiros. São os ex-escravos que voltaram para a África no século 19, e contribuíram para o desenvolvimento de países como o Benim. Conheça os descendentes das famílias de Souza, Amaral, Bandeira.

28/03/2008

Veja a chamada que está no ar na Globo News





27/03/2008

Benim Menino



Por Claufe Rodrigues



10.
O menino Benim é uma espécie de camaleão
Que nunca muda de cor
Pois não sabe o que é ser triste
Nem sente frio ou calor

27/03/2008

Diário do Benim: Um encontro em Singbomey



Foi no dia da missa em homenagem ao Senhor do Bonfim.
Foi no dia da burrinha na casa do Chachá VIII.
Foi em Singbomey.

Singbomey, aliás, é o nome do grande quarteirão onde o primeiro Chachá, Francisco Félix de Souza, ergueu sua casa e onde muitos descendentes da família "de Souza" mantêm suas moradas e suas glebas.


Palácio do Chachá VIII em Uidá



Singbomey vista do alto do palácio do Chachá, à direita o pequeno cemitério da família "de Souza"


Quarto do primeiro Chachá e onde ele está enterrado


Detalhe das inscrições no túmulo do Chachá I

Foi em Singbomey que se deu meu encontro.

Ao sair da ante-sala onde estão expostas as pinturas e fotografias dos sete primeiros Chachás, entrei no quarto de dom Francisco e me deparei com uma senhora orando ao lado do túmulo.

Achei a cena bonita e comovente. Pedi para fotografar. Ela consentiu com um sorriso. Depois das fotos agradeci e ela perguntou:
- Qual o seu nome?
- Alexandre.
- Eu sou Catherine.
- Prazer.
- E o seu sobrenome?
- dos Santos; Alexandre dos Santos.

Catherine abriu os olhos e os braços, deu um suspiro profundo e disse bem alto:
- Ora, eu sou Catherine dos Santos! Você é da família! Você também é um "dos Santos"!

Nos trinta minutos seguintes fui levado pela mão e apresentado a todas as tassinons (as "grandes tias", as mulheres mais velhas, no idioma miná,) e a todos os "dos Santos" presentes ao banquete na casa do Chachá VIII.

Sempre imaginei ser primo em algum grau distante de várias famílias do Brasil e em Portugal. Neste dia fui admitido, sem a menor cerimônia, ao ramo beninense da minha numerosa e generosa família africana.

Alexandre dos Santos


Catherine dos Santos presta homenagem a dom Francisco


Alexandre e Catherine sob os retratos dos Chachás I, II e III




26/03/2008

OLHO DO CÂMERA: Crianças na escola



Era um formigueiro de uniformes cáquis que povoavam as estradas empoeiradas por onde a nossa kombi passava. Sem acostamento, o fiapo de trilha era habitado por crianças que iam para a escola.

Ao longe, só dava pra ver as silhuetas daquelas formiguinhas, distorcidas pelo calor produzido pelo sol febril da África. A curiosidade me obrigou a pedir ao nosso motorista que parasse o carro para que eu pudesse registrar em imagens aquele momento.

Percebi que as crianças tagarelavam felizes e algumas até cantarolavam saltitantes as cantigas em ioruba, mesclado ao francês que aprendem na escola. Essas escolas, construídas com doações de países ricos, são projetos que levam a educação à África. As escolas se espalham ao longo das estradas beninenses. Uma delas me chamou atenção porque tinha a bandeira japonesa desenhada acima da porta de entrada.

À noite, quando voltávamos para Cotonu de uma de nossas viagens, percebi que aqueles uniformes cáquis continuavam a procissão pelas escuras trilhas desenhadas à beira da estrada. Agora, retornavam para suas aldeias.

Emocionado, escondi do Claufe e do Alexandre os olhos molhados... Fiquei encantado com a força de vontade daqueles meninos e meninas que não se intimidavam com as longas caminhadas na escuridão, em busca de uma luz do outro lado do túnel...


Paulo Pimentel, repórter cinematográfico






25/03/2008

Benim Menino


Por Claufe Rodrigues

<
9.
A menina Benim
Em sua infinita graça
Exibe elegância na poeirenta estrada
Como se estivesse desfilando
Numa passarela de Paris.
Mas na cabeça nada de sonhos:
Apenas bananas e abacaxis




25/03/2008



Diário do Benim: nosso encontro com o Chachá



Estávamos um pouco ansiosos para conhecer o Chachá, um dos homens mais importantes do Benim. Apesar de toda a pompa e circunstância que cerca Sua Majestade, fomos recebidos de uma maneira bem informal e alegre, como se tivéssemos acabado de chegar na casa de um parente próximo.

Vou explicar. “Chachá” é um título real, o segundo mais importante do reino do Daomé (o antigo nome do Benim). Foi criado em 1821 para conceder ao baiano Francisco Félix de Souza o cargo de Vice-rei da cidade de Uidá e o controle de todo o comércio exterior do reino, cujo maior “produto de exportação” eram os escravos.

O atual Chachá, o oitavo, ainda mantém a reputação de Vice-rei do Daomé, meramente figurativo. Porém, seu poder político no Benim e no país vizinho, o Togo, é fruto da própria importância de Honoré Feliciano Julião Félix de Souza como empresário bem-sucedido. Para os agudás, os descendentes das famílias brasileiras no Benim, ele é realmente o rei.

Mesmo o Benim tendo seu presidente, Yayi Boni, democraticamente eleito há pouco tempo, quando se fala dos “brasileiros” do Benim, é o Chachá quem manda.

Nosso primeiro encontro era apenas uma visita de cortesia. “- É muito importante fazer isso! É demonstração de respeito.” frisou o nosso intérprete, Abrahan Gbossa.

O “mitô” Chachá (nosso pai Chachá) nos recebeu com a mesa repleta de bolos, salgadinhos, doces, refrigerantes, cervejas...

E foi assim, num encontro muito informal com um dos beninenses mais ilustres, que acertamos todo o nosso dia seguinte, um dos mais importantes: a missa em homenagem ao Nosso Senhor do Bonfim (data importantíssima para os agudás) e a festa da Burrinha.

Mas isso eu vou deixar pro Paulinho contar...

Alexandre dos Santos


Pintura representando o primeiro Chachá



Claufe, Alexandre e Paulo com o Chachá devidamente paramentado




Nosso intérprete Abrahan trajado para o encontro com o Chachá

25/03/2008

OLHO DO CÂMERA



O domingo de 27 de janeiro seria especial. Honoré Feliciano Julião Francisco de Souza, o Chacha VIII, a maior autoridade local, nos levaria à igreja de Uidá, para a missa do Senhor do Bonfim. Depois, o almoço no palácio onde vivia com toda a pompa africana. A festa da Burrinha, as cantigas em iorubá e mina nos transportavam de volta ao século XlX, nos tempos em que a conexão Benim -Brasil era efervescente.



Basílica de Uidá e os fiéis que chegaram para a missa do Bonfim




Alexandre, Claufe, Chachá e Paulo


Chefes das tribos da região, convidados de honra, encantavam nossos curiosos olhos, ávidos em conhecer a cultura local. Nos sentimos honrados de gravar imagens daquela gente tão ilustre e generosa.



Chachá e ilustres beninenses na festa da Burrinha


Uma tenda gigante fazia sombra no quintal da parte de trás do palacio. A mesa enorme em forma de U abrigava os parentes e convidados. Foram servidos feijoada, peixe assado, banana da terra frita. Cometemos o erro de acompanhar os locais, experimentando o molho de pimenta que nos foi oferecido. Éramos amadores para tal iguaria. Suamos muito a camisa e só aliviamos o nosso sofrimento quando uma simpática senhora nos trouxe uma gelada Béninoise, a deliciosa cerveja do Benim. Que alivio!



Preparativos para o banquete na casa do Chachá






O Claufe e o Alexandre se renderam ao som dos atabaques, tambus, castanhetes e cantigas e dançaram a burrinha, levantando a poeira vermelha do terreiro. Brincavam o carnaval em janeiro, mas só que em Uidá. Estávamos em casa.

Paulo Pimentel, repórter cinematográfico



Personagens da burrinha




Paulo filma os músicos durante a burrinha









Nos 120 anos do fim da escravidão, a Globo News apresenta uma série exclusiva sobre os retornados brasileiros. São milhares de ex-escravos que voltaram para a África ocidental em busca de oportunidades e lá, em países como o Benim, tiveram um papel fundamental no desenvolvimento da região. A equipe, formada pelo repórter Claufe Rodrigues, o produtor Alexandre dos Santos e o repórter cinematográfico Paulo Pimentel, foi ao Benim para mostrar as origens, os descendentes, as heranças dos "brasileiros" ainda hoje visíveis no continente africano. É o Brasil na África. É a África na Globo News. O próximo programa inédito vai ao ar no dia 06/04, às 23h. Fique ligado também nos horários alternativos: segunda, às 11h30 e 17h30; terça, às 05h30; e sábado às 16h30.

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Fotos de Claufe Rodrigues e Alexandre dos Santos. Estas imagens não podem ser copiadas ou reproduzidas.
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