05/03/2008
Benim Menino
Por Claufe Rodrigues6. O menino Benim tem o dobro da minha idade
Mas, se um dia ele crescer, há de
Ser um milagre,
Pois, se pudesse escolher,
Que vinho virava vinagre?
05/03/2008
Diário do Benim: as crianças
Claufe e Paulo já escreveram sobre as crianças do
Benim. Escrever mais um pouco nunca é
demais. Em todas as cidades por onde passamos, nossa equipe chamava a atenção. Éramos seis ou sete pessoas que desembarcavam carregadas com todo aquele trambolho da reportagem. Difícil não ser notado!
E elas estavam sempre lá! Mesmo atiçando a
curiosidade de todo mundo, sem exceção, eram sempre as crianças que se aproximavam primeiro!
Às vezes podia demorar um pouco, quando boa parte dos meninos e meninas ainda estava na escola, mas era líquido e certo: em algum momento do dia iríamos estar rodeados de crianças e adolescentes!
No primeiro dia em
Porto Novo eram tantas! Umas puxavam conversa, outras, mais ressabiadas, seguiam atentas todos os nossos passos, alguns mais afoitos pulavam na frente da câmera. Ficamos maravilhados, mas tínhamos que trabalhar.
Paulo precisava gravar uma imagem do Claufe com a Grande Mesquita de Porto Novo ao fundo. Então, ficou por minha conta tentar distrair a
galera e manter todos distantes da câmera.
Longe de ser um "castigo", foram alguns dos momentos mais divertidos que passamos.
E, claro, renderam muitas fotos.
Alexandre dos Santos
03/03/2008
Benim Menino
por Claufe Rodrigues
5. Quando eu crescer
Quero ser como o Benim menino:
Andar de mãos dadas
Sem parecer feminino.
29/02/2008
OLHO DO CÂMERA: Nosso batismo
A poeira e o calor eram
inimigos implacáveis do nosso equipamento. Logo no primeiro dia, depois de filmarmos as orações na mesquita central de Porto Novo, um frio na barriga: ao trocar um dos discos de imagens, nossa câmera
pifou.
O calor escorria pela testa. A luz do dia já se despedia devagar, aumentando nossa apreensão. E se nada mais funcionasse, onde conseguiríamos manutenção do equipamento no
Benim? Só nos restava uma esperança: a chamada telefônica para a
engenharia da Globo do Rio.
Do outro lado da linha atendeu
Nazaré, um dos mais brilhantes da casa. Ele sabia da gravidade do problema, mas falou com tranqüilidade para nos deixar mais calmos. Desligue a câmera, retire a bateria. Deixe a câmera esfriar. Esfrie a cabeça e tenha esperança, Paulinho, repetia aquela voz lá do outro lado do Atlântico.
Rodeados de crianças curiosas em ver aqueles homens carregando máquinas estranhas, sentimos a energia mais leve. O suor se dissipava. As crianças se
divertiam, sem entender nosso desespero. Os olhos de uma menina brilhavam fixos na minha direção.
De repente, tira disco, põe disco, assopra aqui e ali, a câmera volta a funcionar. O trabalho está
salvo!
A primeira coisa que gravei depois disso foi uma imagem das crianças - uma singela maneira de agradecer.
Paulo Pimentel, repórter cinematográficoO repórter cinematográfico Paulo Pimentel enquadra as crianças
Claufe Rodrigues e Paulo Pimentel com a Grande Mesquita de Porto Novo ao fundo
29/02/2008
Diário do Benim: enfim, para Porto Novo
E lá fomos nós, finalmente, para
Porto Novo. Assim mesmo, com a grafia em português! Porém, no sotaque francês e das línguas locais o nome da cidade acabou virando
"Pórt Nuvô".Uma das histórias conta que foi
João de Oliveira, ex-escravo que voltou do Brasil para aquela região, quem batizou a cidade com esse nome, na metade do século XVIII. Ao voltar para a
África, João se tornou um dos maiores mercadores de escravos, inaugurando dois novos portos de embarque dos cativos:
Lagos (na Nigéria) e
Porto Novo (no Benim). Como o rei da época gostou do nome, ficou assim até hoje.
Incrível é perceber que vende-se de tudo na
beira da estrada: pão, churrasquinho, carvão, abacaxis... até gasolina!
E como tudo é
colorido!
Aquele chão vermelho e a pálida aridez da areia - que se acumula nas calçadas, na beira das ruas e nas estradinhas de terra - causa ainda mais impacto no contraste com as tonalidades e combinações de cores que os
beninenses vestem. Tudo muito alegre e amistoso, como a índole das pessoas que conhecemos e que ainda viríamos a conhecer no tempo que passamos aqui.
Foi um prato cheio para o
Paulo Pimentel, nosso repórter cinematográfico, que já sofria crises de abstinência por estar quase 24 horas sem
gravar nada! Mal sabia ele que ficaria com os dedos calejados...
Alexandre dos Santos
27/02/2008
Benim menino
Por Claufe Rodrigues4. A força centrífuga dos rinocerontes,
A sabedoria explícita dos elefantes,
A leveza dos peixes na boca cheia de dentes,
A inocência das cabras pastando ao léu.
Assim é o Benim menino,
Gasolina e mel
Na beira de uma estrada
Que dá sempre no mesmo lugar:
O céu, o mar?
27/02/2008
Diário do Benim: primeira viagem a Porto Novo
Eram 15h quando pegamos o caminho para Porto Novo. Nas ruas e estradas, um
enxame de motocicletas e lambretinhas cercavam nossa van em movimento. Por aqui, no espaço exíguo entre o guidom e a garupa, transporta-se a família toda, monitores de computador, televisores...
Imaginem qualquer objeto, de qualquer tamanho: um
beninense típico dará um jeito de colocá-lo sobre duas rodas.
Além da
infestação das motos e lambretas, ainda dividimos as estradas com um monte de
carros e caminhões velhos. A maioria dos veículos daqui não passaria nem na porta do Detran. Carros, motos, caminhões... todos liberam uma
fumaça pretíssima e espessa no ar. Essa fumaça, somada a um fenômeno que os beninenses chamam de "air matin" (uma espécie de adensamento do ar que baixa as partículas de poeira e areia que vêm lá do Saara, bem ao norte do Benim), maltratou bastante a nossa equipe. Boa parte dos motoqueiros daqui dirige com uma daquelas
máscaras hospitalares no rosto.
A viagem - pouco mais de 30km de Cotonu a Porto Novo - seguia tranqüila e curiosa, até que da placidez veio o
caos!
De repente, o trânsito começou a parar, e logo o
engarramamento nos engoliu!
O acostamento à direita virou pista de alta velocidade, com carros e motos à toda, até que tudo ali parou também! Do lado esquerdo, na contramão, a mesma coisa! Ah, e me esquecia de dizer: aqui todo mundo
buzina por tudo e para tudo! É impensável qualquer veículo sem uma buzininha!
Então, ali estávamos nós, parados, no meio de dois corredores de carros, motos e caminhões igualmente parados, baforando toneladas daquele
hálito carburático na cara de todo mundo!
Enfim, vencidos pela situação,
desistimos. Aí entrou em ação o nosso motorista Victor. Na melhor tática "água mole em pedra dura", ele foi abrindo espaços e conseguiu nos colocar no caminho de volta.
No fim das contas, nós é que viramos "os retornados": nossa primeira viagem a Porto Novo terminava três horas depois... em
Contonu!!!
Alexandre dos Santos
25/02/2008
Diário do Benim: a moeda
Antes de começar o trabalho, é necessário trocar os euros que trouxemos por
francos cefas (pronuncia-se "cefás").
Euro é a moeda mais forte aqui nos países da
África Ocidental. Mais valorizada que o dólar, a
moeda européia está no topo das cotações para a conversão em moeda local. Um euro vale 640 Francos CFA na casa de câmbio do hotel. Na rua você consegue um câmbio até mais favorável, mas o risco é maior.
O
Franco CFA é, hoje, a moeda da maioria dos países que faziam parte da antiga
África Ocidental Francesa. Além das
ex-colônias da França (Benim, Togo, Senegal, Camarões, Costa do Marfim, Burquina-Fasso, Gabão, Congo, Mali, Níger, Chade e República Centro-Africana), também fazem parte a Guiné-Bissau, ex-colônia portuguesa, e a Guiné Equatorial, ex-colônia da Espanha (e único país africano a falar espanhol).
Todos esses países fazem parte da atual
Comunidade Financeira Africana (Communauté Financière Africaine). Curioso é comprovar que a África já tem a sua experiência bem sucedida de moeda única desde 1992, dez anos antes da Europa fazer o mesmo.
Alexandre dos Santos
21/02/2008
Benim Menino
Por Claufe Rodrigues
3.
O Benim é um menino
Que nasceu muitas vezes
Sem nunca se tornar adulto.
Daí ser imune a doença
Humilhação e insulto.

21/02/2008
Diário do Benim: Um encontro na embaixada do Brasil em Cotonu
Para os padrões brasileiros,
Cotonu, com seus 800 mil habitantes, não chega a ser uma cidade grande. Levando-se em consideração que o país é um pouco maior do que o estado de Pernambuco, ainda assim, a capital do Benim perde em população para o Recife (1,5 milhão de habitantes).
São
raros os prédios com mais de cinco andares. As exceções são alguns dos ministérios mais importantes, como o da Economia e o das Relações Exteriores. A casa onde funciona a embaixada do
Brasil não foge à regra - é um
belo sobrado numa das ruas movimentadas do subúrbio de Cotonu, entre o aeroporto e o centro da cidade. No mesmo bairro também estão várias outras representações de países africanos.
O vice-cônsul José Carlos de Souza nos recebe e nos passa as primeiras
informações importantes sobre o país e os telefones de contato que precisamos para quaisquer eventualidades.
Também encontramos nossos companheiros de viagem: chief Paul Bamgbose-Martins (nosso guia), Abrahan Gbossa-Ahohi (nosso intérprete) e Mariano Amissah (assistente de gravação).
Decidimos que o primeiro lugar a visitar seria a cidade de Porto Novo, a cerca de 40 minutos da capital.
Nenhum de nós imaginava que, no meio do caminho, íamos desistir e voltar correndo para Cotonu. Mas isso é outra história, que a gente conta depois.
Alexandre dos Santos
Embaixada do Brasil

Lojinha de roupas na frente da embaixada

Abrahan, Mariano, Alexandre, chief Paul e Claufe

Vice-cônsul José Carlos de Souza

Tânia e Juliette, funcionárias da embaixada