Os retornados
18/02/2008

Benim Menino

Por Claufe Rodrigues



2.
O Benim é um menino sadio
Coberto de lama por seus ancestrais.

18/02/2008

Diário do Benim: Chegada ao aeroporto internacional de Cotonu



Enfim chegamos ao Benim. Era noite e a cidade se desmanchava em pequenos pontos de luz beiradas pela escuridão do Atlântico.

O vôo nem estava tão cheio, mas foi o suficiente para formar duas longas filas no corredor para a checagem dos vistos e passaportes.

Todo mundo falava ao mesmo tempo naquele enclave de Babel. Éramos três falando português, rodeados por muitos sons em francês e em vários outros idiomas que, futuramente, iríamos distingüir mais ou menos entre o fom, o miná, o gum e o iorubá, as quatro principais das mais de 150 línguas (e dialetos) faladas no Benim.

Além de nós, passageiros, um igual número de carregadores de bagagem se acotovelavam oferecendo todo e qualquer tipo de auxílio. A frase que mais repetimos nesses primeiros 40 minutos em Cotonu foi "Non, messieurs, merci!"

Braços esticados para frente, tapinha nas costas, pegadas nos braços... Uma coisa aprendi nessa e em outras viagens por países africanos: aqui não se pode ter medo do contato. As pessoas se encostam, se espremem e te seguram sem o menor receio ou constrangimento.

Enfim, na terceira passeada das nossas bagagens pela esteira, tudo já estava conosco para mais uma aventura, sair do aeroporto e encontrar o grupo que nos aguardava no desembarque: o vice-cônsul do Brasil no Benim, José Carlos de Souza e sua mulher, Maria do Socorro; o "chief" Paul Lola Bangbose-Martins, que conhecia todas as famílias dos descendentes de brasileiros no Benim e que seria um dos nossos guias e Abrahan Gbossa-Hohe, beninense e funcionário da embaixada do Brasil, ex-professor de português para as famílias dos retornados e nosso intérprete.

Ao cansaço da viagem se acumulava também a perspectiva de acordar cedo e iniciar a organização dos próximos dias de trabalho.

Alexandre dos Santos

14/02/2008

BENIM MENINO

Por Claufe Rodrigues



1.
Meu menino Benim
Que não cresce jamais
Nos olhos de cativeiro
O reflexo de um cais
Sempre em movimento
Onda soprada pelo vento
Que leva e traz
Alegrias e tristezas
Como se a vida fosse feita
Não de correntes
Mas de correntezas.


14/02/2008

Primeiras impressões



Quando visitamos uma cidade ou um país pela primeira vez, sentimos sempre aquele misto de ansiedade e insegurança de pisar onde nunca estivemos antes.

Fomos para o Benim com objetivos bem traçados: procurar as famílias dos brasileiros que voltaram para a África depois da assinatura da Lei Áurea, há 120 anos; e encontrar os descendentes do maior traficante de escravos do mundo, o baiano Francisco Félix de Souza, que acumulou tanto poder e riqueza que foi nomeado vice-rei do Daomé (antigo nome do Benim) no início do século XIX.

Tínhamos 12 dias para colher depoimentos e imagens a fim de mostrar aos brasileiros que parte da nossa História ainda está viva do outro lado do Atlântico, meio letárgica, quase adormecida, esperando ser reencontrada.

E foram 12 belos dias em que passamos na companhia dos Martins, dos Monteiro, dos Campos, dos Santos, dos Ruffino, dos Almeida, dos de Souza, dos Bandeira, dos Medeiros, dos Domingos, dos Rodriguez. Recuperamos parte da história brasileira nas reminiscências, nos folguedos, nas comidas, na arquitetura, na cultura dessas famílias e seus integrantes.

Quando chegamos no Benim, estávamos cheios de esperança, mas também com um certo temor de as coisas não serem como imaginávamos. Quando nos despedimos - repletos de momentos fascinantes, amizades e histórias saborosas e intrigantes – nossa esperança estava renovada. Se parte do Brasil sempre esteve por lá, agora parte do Benim voltava conosco.

Alexandre dos Santos





Nos 120 anos do fim da escravidão, a Globo News apresenta uma série exclusiva sobre os retornados brasileiros. São milhares de ex-escravos que voltaram para a África ocidental em busca de oportunidades e lá, em países como o Benim, tiveram um papel fundamental no desenvolvimento da região. A equipe, formada pelo repórter Claufe Rodrigues, o produtor Alexandre dos Santos e o repórter cinematográfico Paulo Pimentel, foi ao Benim para mostrar as origens, os descendentes, as heranças dos "brasileiros" ainda hoje visíveis no continente africano. É o Brasil na África. É a África na Globo News. O próximo programa inédito vai ao ar no dia 06/04, às 23h. Fique ligado também nos horários alternativos: segunda, às 11h30 e 17h30; terça, às 05h30; e sábado às 16h30.

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Fotos de Claufe Rodrigues e Alexandre dos Santos. Estas imagens não podem ser copiadas ou reproduzidas.
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