14/04/2008
Até breve!
Foram quase cinco meses envolvidos por essa atmosfera mágica e lúdica que a África emana. Nossa rotina: dormir, sonhar e acordar com os retornados brasileiros. Pensar o tempo todo nas complexas implicações que a História nos impôs com o degradante episódio da escravidão. Imaginar o extraordinário poder de superação dos povos subjugados e de seus descendentes. E, entre uma garfada e outra na hora do almoço, lembrar dos nossos companheiros de trabalho que ficaram na África: Abraham, Victor, Mariano, chief Paul...
Neste blog, criado para ser um espaço de divulgação e de troca de informação, emoção e experiências, tivemos muitas e boas respostas. Sabíamos que a pauta era inovadora e de interesse público. Mas não esperávamos uma recepção tão calorosa ao nosso trabalho. Depois de tanto tempo escrevendo, pensando e nos emocionando com pessoas que vibram na mesma freqüência, chegou a hora de partir para outras. Mas não nos esqueçamos jamais de que, do outro lado do Oceano Atlântico, vive uma comunidade brasileira, formada por centenas de milhares de pessoas, que também sente as coisas como nós. Como não se afeiçoar aos personagens que conhecemos no Benim, como Auguste e Jean Roger Amaral, Fortuné, Lotty e Roger Bandeira, Marguérite D'Almeida, Yves Rodriguez, Akibe Ruffino? E como esquecer a simpática figura do Chachá VIII? E as crianças, os olhos e sorrisos das crianças?
Nossos agradecimentos a Luciane Neno, Marcella Cataldo, Paloma Pietrobelli, Amanda Boaventura, Camila Tavares, Fernanda Garrafiel, Martha Sampaio, Marion Lemonnier, Danielle Cristine, Alessandra Andrade e Castanhola, que nos deram apoio e suporte nesse tempo todo em que ficamos no ar na web e na TV. Nosso muito obrigado aos internautas que nos prestigiaram com visitas, comentários e sugestões.
Bem, e para quem não viu os programas, ainda resta uma chance: eles estarão disponíveis neste blog.
Antes que Paulinho Pimentel e Alexandre dos Santos fiquem com os olhos marejados, vamos encerrar os trabalhos... E assim nos despedimos de vocês e dos nossos brasileiros de além-mar: até breve!
Claufe Rodrigues
14/04/2008
Marca brasileira
No segundo e último programa da série sobre os ex-escravos que voltaram para a África, veja a marcante presença brasileira na arquitetura, na culinária, na língua e nas festas populares do Benim.
11/04/2008
Olho do Câmera: o ritual
No domingo, véspera da nossa partida do Benim, gravamos pela manhã na Igreja da Imaculada Conceição, em Uidá.
Ainda tínhamos algumas pendências. As imagens que ficaram para a última hora.
O calor minava as últimas reservas de energia da nossa equipe. A nossa van parecia um forno ambulante. O meu desodorante ameaçava vencer a qualquer hora, de tanta transpiração. A estrada, empoeirada e esburacada, castigava nossos traseiros.
Ao atravessar uma ponte, a movimentação por trás dos arbustos chamou nossa atenção. O motorista, consciente de nossa curiosidade, parou a van, e descobrimos que ali acontecia um ritual vodun. A cabana, com teto de zinco e paredes vazadas, permitia a entrada de discretos raios de luz. Autorizada pelo chefe do terreiro, a nossa câmera tinha agora que enfrentar o desafio de registrar a cerimônia com tão pouca luz ali dentro. Um cabrito e um frango foram sacrificados. O sangue dos animais era jogado num pequeno altar e no chão que todos pisavam. Jatos de aguardente saíam da boca do homem que, sem camisa, emitia sons estranhos. O calor se tornava insuportável. O teto da cabana era baixo, limitando meus movimentos. O suor salgou meu olho, dificultando a visão através do olho da camera. Senti uma mistura de medo e respeito por estar no coração daquele ritual. A energia era forte naquele lugar...
Exausto, agradeci àquela gente a oportunidade de registrar a cerimônia, enxuguei o suor e seguimos em frente.
Só faltava gravar uma chamada, num mercadão a caminho de Cotonu. Aí sim, poderia tomar banho, trocar de roupa e embalar o equipamento, até a próxima viagem.
Mercado de domingo, a caminho de Cotonu: as últimas imagens
11/04/2008
Benim Menino
Por Claufe Rodrigues16.O menino Benim é uma estrada sem fim
Que liga o presente ao passado
O futuro, quando chegar,
Será um furo de reportagem
09/04/2008
Benim menino
Por Claufe Rodrigues15.Dor é o que divide esse mar em dois
Olhos secos de trevas e rasos de luz
Ardendo sob um sol tísico e incapaz
07/04/2008
Benim Menino
Por Claufe Rodrigues14.Ai de mim, menino Benim,
Que só tenho a fala do colonizador.
Fon, gun, mina, ioruba e mais de cem:
Enquanto tiver tanta língua,
Você jamais morrerá à míngua,
Nunca será um zé-ninguém.
07/04/2008
Grande família brasileira na África
Veja aqui o primeiro programa da série que mostra os ex-escravos que voltaram para a África no século 19 e contribuíram para o desenvolvimento de países como o Benim. Conheça os descendentes das famílias de Souza, Amaral, Bandeira.
04/04/2008
Benim Menino
Por Claufe Rodrigues13.De quantas mães você precisa,
Menino Benim?
A mais gorda cuida da cozinha,
A mais feia varre a casa.
Aquela, tão bonita, canta e dança no terreiro,
Onde a magrela sopra a brasa.
A mais nova vende na feira
Ou na beira da estrada
O peixe e o camarão
Que a irmã pescou
Na lagoa encantada.
As mães do menino Benim
São tão parecidas
No jeito de vestir, na maneira de andar.
Nasceram para gerar as mesmas vidas,
Muitas vezes.
Os séculos parecem meses
Que passaram sem passar.
04/04/2008
Diário do Benim: o pequeno Elian
Foi sem a menor cerimônia, bem do jeitinho africano.
Depois de um longo e cansativo dia de trabalho, nosso carro fez o favor de quebrar. Estávamos num bar chamado KGB (!) esperando para saber se tudo poderia ser resolvido nas próximas horas, enquanto bebíamos uns refrigerantes.
Mecânicos de Agüê avaliando o estrago
Sem que eu me desse conta, no meio dos curiosos que cercavam o Paulinho, por causa da câmera, lá estava o pequeno Elian com o cotovelo displicentemente apoiado no meu joelho. Bastou um sorriso pra gente se entender (e o sorriso sempre abre portas, não só aqui na África).
Paulinho cercado pelos curiosos
Ele já vinha acompanhando todos os meus movimentos e se interessou bastante pelas fotografias que eu tirava. Através de mímica a gente foi se entendendo devagar, já que ele não falava francês ou português e eu nem sequer imaginava que língua ele estava falando, se fom ou miná.
Durante as três horas em que esperamos pela notícia de que o carro não ficaria pronto, "conversamos", rimos muito e tiramos várias fotos.
Naquele dia, em Abomé (a antiga capital do reino fom do Daomé), conheci, convivi e me despedi triste do filho adotivo que encontrei lá do outro lado do Atlântico.
Alexandre mostra as fotos para Elian
Alexandre e Elian
03/04/2008
Benim Menino
Por Claufe Rodrigues
12.A água, o gesto, o porte:
O menino Benim é antes de tudo um forte
Afogando com sua mágoa
A possibilidade da morte.
03/04/2008
Diário do Benim: a nossa bandeira
Levamos três bandeiras brasileiras para o Benim. Não sabíamos ainda para quem elas seriam ofertadas. Agora, olhando para trás, fico imaginando que cada bandeira já estava com o destino traçado. Fomos apenas os “fiéis depositários”, que as levariam até seus donos.
A primeira delas, demos de presente para a família Amaral. Depois de uma recepção calorosa, com direito à burrinha e comidas “brasileiras”, os Amaral receberam o nosso pavilhão – que vimos, surpresos, ser reverenciado com infinitos agradecimentos

Os Amaral reunidosA segunda bandeira foi presenteada aos D’Almeida, uma das mais importantes famílias de retornados de Agüê. Nossa recepção foi mais que amistosa, e olha que chegamos de surpresa! Num jeitão bem brasileiro e improvisado, eles reuniram grande parte da família, nos contaram histórias curiosas e ainda cantaram muitas músicas de origem brasileira. Entre elas, aquela que virou a número um na nossa parada de sucessos. Começava com “papaiiii, mamãeeeee...” e o resto ninguém conseguia entender.
Depois de ganhar a bandeira, ainda posaram para fotos, felicíssimos com o presente.
Família D'Almeida
Claufe com a família D'Almeida e a bandeira do BrasilO terceiro estandarte foi até fácil saber de quem seria. No penúltimo dia, fomos visitar a família Bandeira, descendente de um ex-escravo retornado que era responsável por hastear nosso lábaro no forte militar onde trabalhava. Fortuné, arquiteto bem sucedido e responsável pela construção do Portal do Não-Retorno e do Portal dos Retornados, ficou tão emocionado que imediatamente pediu ajuda ao irmão para escolher o melhor lugar onde pendurar a bandeira.
Pensando melhor, depois de ver a felicidade que o presente trouxe para os Amaral, os D’Almeida e os Bandeira, chegamos à conclusão de que o melhor era termos levado bandeiras para todas as famílias de retornados brasileiros...

Fortuné ajeita a bandeira nos ombros de Lotty, observados por Roger
Prontos para a foto
A família Bandeira se despede de nós
01/04/2008
Diário do Benim: Anika e Francisca
Do lado de fora já dava para ver a diferença. Era um casarão grande, um sobrado daqueles que a gente só vê hoje em dia no centro antigo do Rio de Janeiro, em São Luís ou na Cidade Baixa, em Salvador, por exemplo.
Nenhuma casa por perto é tão imponente. É lá, em Porto Novo, que mora Francisca Patterson - cujo nome de solteira era Francisca dos Santos - a atual presidente da Associação dos Descendentes de Brasileiros.
Ainda do lado de fora, nos encontramos com Anika Domingo, filha da antiga presidente da Associação, que esteve à frente da agremiação por mais de 30 anos, até morrer.
Imponente sobrado brasileiro em Porto Novo
Entrada lateral com a escada externa
Escada externa
Anika Domingos
Entrar no sobrado foi como fazer uma viagem no tempo, direto ao século XIX. O pé direito alto, as janelas grandes, as salas espaçadas, o chão com pequenas pastilhas pretas e brancas... Dona Francisca já nos esperava impaciente com bolos, sucos e aquela maneira bem generosa e acolhedora com a qual já havíamos nos acostumado no Benim.
Dona Francisca lembra que a Associação existe há 125 anos! Mantê-la viva e atuante é uma maneira de prestar reverência aos primeiros brasileiros que retornaram para o Benim - e em especial para Porto Novo – e lá se destacaram em diversos ofícios como a marcenaria, a arquitetura e a construção civil. A casa onde ela mora era prova do esmero e do talento desses brasileiros.
Era naquela casa que se praticava o português durante o tempo em que o idioma era proibido pela administração colonial francesa. Mesmo assim nossa língua perdeu a queda-de-braço para o francês.
Hoje a Associação – e dona Francisca em particular – procura sensibilizar as autoridades brasileiras no Benim para que restabeleçam as aulas de português, suspensas há 10 anos.
Como ela mesma diz: “As tradições podem se perder com o tempo, mas a vontade de manter nossos laços não pode. Se eles sumirem, somem também as lembranças dos nossos ancestrais, das nossas origens, do nosso Brasil.”
Últimos detalhes para a entrevista com dona Francisca
Dona Francisca e chief Paul Bangbose-Martins
Mosaicos no chão do sobrado
Detalhe do mosaico
31/03/2008
Benim Menino
Por Claufe Rodrigues
11.O menino Benim
É um táxi verde-amarelo
No meio de tantas motos.
Símbolo de nosso elo,
Merecia muitas fotos.
31/03/2008
Grande família brasileira na África
O primeiro programa da série que comemora os 120 anos do fim da escravidão mostra a saga dos retornados brasileiros. São os
ex-escravos que voltaram para a África no século 19, e contribuíram para o desenvolvimento de países como o Benim. Conheça os descendentes das famílias de Souza, Amaral, Bandeira.
28/03/2008
Veja a chamada que está no ar na Globo News